terça-feira, 4 de março de 2008

Queridos e Poucos Amigos

Eu sou um cara de poucos amigos; tal quantidade dá pra contar nos dedos (de uma mão). Não sei se isso é bom ou ruim, mas tenho certeza que com eles posso contar de verdade, assim como podem contar comigo também. Talvez isso não acontecesse se eu tivesse um monte e não mantivesse uma amizade próxima, sadia e sincera como a que eu tenho com algumas pessoas que estão do meu lado e são testemunhas do meu desenvolvimento e da minha vida.

Muitos ficaram pra trás; alguns por causa do tempo, do distanciamento, alguns pelo simples fato das idéias não se encontrarem mais, ou porque escolheram tipos de diversões que não me convêm. Outros nunca foram meus amigos de verdade, não passaram de companheiros durante algum tempo, mas é desses que as vezes eu sinto falta. É mais ou menos como aquela frase do Fernando Pessoa: "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem".


Na segunda série, quando eu tinha sete anos de idade, estudei no Colégio Nossa Senhora da Misericórdia, em Fortaleza. Minha família mudara para a cidade na tentativa de montar um negócio, sendo assim, moramos uma temporada por lá. Como minha mãe viu que as expectativas não eram das melhores, voltou depois de seis meses, mas meu irmão mais velho (Guga) resolveu ficar e levar a sua vida. Como eu ainda não tinha terminado a série, “enchi o saco” da mama pra ficar com meu irmão até terminar o ano. Depois de muita insistência, a coroa cedeu.

Bom, eu nada mais era do que um extraterrestre. Isso tudo porque eu tinha os cabelos longos, falava feio (sotaque paulisssssta, como eles diziam) e era o filho do gigante (apelido dado por causa dos dois metros do meu irmão). Passei muita raiva e fui muito zoado aquele ano, a ponto de voltar pra casa chorando quase todos os dias. Comovido com a minha situação, um garoto moreno e de olhos verdes, cuja única semelhança comigo era o fato também ser debochado pelos demais alunos; mas no caso dele era por conta dos quilinhos a mais que tinha. Certo dia sentou-se ao meu lado e tornou-se meu amigo inseparável.

Chamava-se, ou ainda se chama (assim espero), Claudinei (vulgo Claudéco). Ele morava na frente da praça principal onde tinha umas mangueiras enormes (mangueiras = pés de manga, para os mais espertinhos); sempre me chamava pra jogarmos bila (bolinha de gude) e para comer a maravilhosa tapioca doce que a mãe dele fazia. As vezes, quando meu irmão estava em casa, chamava-o para comer caju do pé - no quintal - jogar futebol, ver a vizinha tomar banho e jogar pedra nas vacas que o vizinho dos fundos tinha no seu pasto improvisado. Era muito boa a nossa amizade; ela completava um pouco a ausência dos meus pais e superava a hostilidade que sofria dos demais alunos da escola. Depois que voltei pra São Paulo, o encontrei duas vezes quando fui visitar meu irmão, tinha entre doze e catorze anos. Após isso, nunca mais o vi, mas ainda o guardo na lembrança.

A última experiência que tive como esta faz alguns meses. Foi em meados de setembro e outubro do ano passado, só que dessa vez não foi um amigo: foi uma amiga. Ela chama-se A.S.F, mora perto da minha casa e fazia cursinho na minha sala, inclusive, falei com ela hoje pra marcar de pegar um livro e um DVD que estão com ela. Talvez esse episódio tenha me impulsionado a escrever esse texto. Mas enfim.

Eu sempre comentava com meus colegas de classe o quanto eu “pagava um pau pra ela”. Ressaltava algumas de suas belezas, como o seu estilo, seus cachos dourados a fio, seu sorriso tímido, mas nunca tive coragem de conversar com ela, nem um oizinho. O que mais me incomodava era que um bobão da sala, daqueles que não consegue falar com nenhuma mulher, conversava com ela na boa; isso me incomodava muitíssimo.

Um dia eu tomei coragem e disse: - Vamô lá Gabi?

Mas é claro que eu não ia lá sozinho; “nem a pau” - do jeito que eu sou bunda mole - se não fosse ela pra me encorajar, eu não ia nunca. Mas fui, ou melhor, fomos. Conversamos o intervalo inteiro e foi aí que eu vi como o bobão conseguia conversar com ela, tamanha era a sua simpatia e serenidade.

Depois, durante um mês e pouco, não nos largamos mais. Conversava-mos toda tarde ao telefone, estudava-mos juntos aqui em casa, as vezes eu ia na casa dela também, e foi aí que eu comecei a sentir algo a mais (aquele que sempre acontece) do que só amizade. Aconteceram algumas coisas nesse tempo, mas isso não vem ao caso. Num dado momento ela resolveu se afastar, ficou distante, enfim, não era a mesma pessoa, na verdade era, só que ainda não conhecia esse seu lado.

Hoje o nosso relacionamento é bem superficial (uma pena). Sempre passo com a minha cachorra na frente da casa dela, mas nunca a encontro, não que essa seja a intenção, mas bem que poderia encontrá-la de vez em quando. Penso nela sempre que posso; ainda a considero uma pessoa muito importante e especial, apesar dos pesares e dos penares.

Pois é. É assim que perdemos pessoas que poderiam ser nossos amigos pra sempre. Pessoas que têm os mesmos ideais, os mesmos sonhos e os mesmos gostos, e, por um simples acontecimento, ou por egoísmo de alguma das partes, essa amizade se perde no meio do caminho. O problema é quando, por esse e por outros motivos, nos afastamos de nós mesmos, sendo pessoas que não somos e tomando atitudes que não tomamos. De tudo isso, o importante é saber que amizades são para sempre, nós, não.

domingo, 2 de março de 2008

Boletim de Ocorrência

Era mais ou menos nove e meia da noite do dia primeiro de março.
Eu estava chegando ao ponto de ônibus no bairro da Lapa e percebi que a praça onde param os coletivos estava vazia e as poucas pessoas que se encontravam ali pareciam bem apreensivas.

Enquanto estava sentado no banco esperando o motorista chegar pra seguirmos viajem, apareceu um homem sem camisa, de bermuda vermelha, cabelo bagunçado, com os cotovelos sangrando, encarando todos que estavam na fila.

O motorista chegou para acalmá-lo, pois o cidadão estava bem agitado. Este se sentiu ameaçado e correu atrás daquele com um abridor de coco nas mãos, rua a fora. Foi aí que a minha aventura começou naquela noite de sábado.

Eu fiquei assustadíssimo; não estava entendendo nada. Pessoas gritavam, algumas mulheres choravam; ninguém tinha o que fazer.
- Liga pra polícia, pelo amor de Deus. Gritava uma senhora de bolsa preta e cabelo pixaim. O homem hostil não conseguiu pegar o motorista e voltou para a praça.

Pessoas corriam pra todos os lados para fugir dele e eu não fiz diferente. Enfiei-me dentro do ônibus junto com um rapaz de jeito afeminado que gritava de medo e tentei fechar a porta, mas a maldita não fechou.

Eu ainda, sem entender nada, fiquei olhando de dentro toda a movimentação dos populares que morriam de pavor com toda fúria daquele rapaz.

Ele veio em direção à porta do ônibus e me olhou nos olhos, fiz o mesmo e percebi que estava chorando e com o olho machucado, não parecia que queria me atacar.

Ainda olhando pra mim, desabafou com as seguintes palavras: - Eu tenho quatro filhos que passam fome. Eu trabalhei o dia inteiro pra aquele f.d.p. vim me desrespeitar desse jeito. Cadê ele? Cadê ele? Eu vou matar esse cara. E correu para a praça.

Eu olhei para o fundo do coletivo e percebi que tinha um homem deitado no chão que parecia se esconder; não se movimentava. Além disso, vi que dois vidros estavam quebrados. Logo imaginei que ocorrera uma briga antes de eu chegar ali.

Algumas pessoas que o conheciam tentavam acalma-lo, mas o homem não largava o abridor. Enquanto isso, quase todos tentavam ligar para a polícia, mas não passavam da mensagem automática. Poucos minutos depois chegou uma viatura com dois policiais e o motorista que fugira a pouco do maluco.

Os homens apontaram suas armar em direção ao individuo, mas ele não se entregou. Foram chegando mais perto e um deles descarregou um chute na barriga e o cujo caiu. Algemaram-no e o colocaram na viatura com sopapos na nuca.

Eu fui até um dos policias e avisei que havia um homem deitado no ônibus, imóvel. Quando entrou, dirigiu-se em direção da vítima e o acordou, pois este estava desmaiado. O homem levantou. Era um senhor, aparentava uns 41 anos. Era mal cuidado, usava uma roupa bem simples e uma bota de operário. Fiquei com dó. Ainda atordoado, perguntou para o policial onde estava a sacola dele. Depois apareceram com ela; tinha apenas umas mudas de roupa e um pedaço de papelão velho.

Enquanto isso, nos arredores da viatura, um senhor que se dizia amigo do baderneiro que já estava na “gaiola”, tentava tirar o rapaz dizendo que ele era inocente. O policial perdeu a calma, pôs as algemas nele e colocou-o para fazer companhia ao seu amigo.

Quando tudo se acalmou, perguntei para a senhora de bolsa preta o que acontecera antes da minha chegada. Ela disse que tudo começou quando os dois estavam no bar bebendo cachaça e num dado momento começaram a discutir. A briga foi se acentuando e foram aos trancos e barrancos (literalmente, pois estavam bêbados) até o ponto na praça dando porrada um no outro. O homem que estava caio dentro do ônibus estava batendo no louco de bermuda vermelha até que este foi ajudado por um amigo, assim virando o jogo e batendo no outro até fazê-lo cair no chão. Algumas pessoas tentaram ajudar o operário e o colocaram dentro do ônibus para escondê-lo do de bermuda enquanto ia buscar alguma arma para matá-lo. E foi aí que eu cheguei.
Depois de toda a confusão, motorista, cobrador, acusados, vítima e policias foram até a DP da Rua Catão para fazer o Boletim de Ocorrência.

Enquanto voltava pra casa, fiquei pensando nos quatro filhos desse rapaz. Eu imagino a criação que essas crianças tiveram, o ambiente em que foram criados e quem serão no futuro. Pra mim, a base da conduta e formação de um cidadão está na família. Nem sempre pessoas que têm em casa pais indisciplinadas ou viciados em algum tipo de droga tornar-se-ão como os pais, mas a chance é muito maior. Espero que esse homem se recupere, receba a pena que tem que receber e volte para casa para ser um pai e um homem de verdade e respeito.
E assim foi.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Agora é "Créu"

Além da cervejinha, da mulherada e da caipirinha, os verões no nosso país são banhados de hits musicais, que são o assunto principal desse comentário. Músicas como: “Poeira” (Ivete Sangalo), “Vai Lacraia” (Mc Serginho e seu(a), como preferirem, bailarina(o) Lacraia), “Se ela dança. Eu danço” (Mc Leozinho), e outra infinidade de estrofes musicadas, agitaram e, em alguns casos, ainda agitam a alta estação e as praias brasileiras.

Nesse ano, o hit que está se destacando é a “Dança do Créu” (Mc Colibri), ou seja, mais uma merda bombando nas rádios do país. Uma letra de dar inveja a qualquer fã da banda Calypso e uma melodia que faz James Brown revirar-se no túmulo ao saber que isso é chamado de Funk, compõem a canção (se é que possamos chamá-la assim). Ela tem três ou quatro fases cujo refrão restringe-se ao termo “Créu” que aumenta a velocidade conforme as fases vão passando; além disso, o rebolado das bailarinas (bem corpudas, pra não dizer outra coisa) vai se intensificando no decorrer das batidas que aumentam gradualmente.

Toda essa implicação com o “Créu” começou quando eu estava no banquinho da Junta Militar esperando o meu nome ser chamado para apresentar-me na salinha do juramento à Bandeira, e um cidadão que estava sentado ao meu lado escutou (a todo volume) essa música infeliz, cinco incessantes vezes, sem intervalo – um verdadeiro massacre sonoro. O mais engraçado é que, enquanto a “bendita” tocava, eu estava lendo um artigo do Valor Econômico que falava sobre os cinqüenta anos da nossa, brasileiríssima, Bossa Nova. Durante o texto, o produtor e historiador Zuza Homem de Mello citou uma frase que se encaixava muito bem com o que sentia naquele momento: “Bossa Nova em 2008 é ótimo para quem não agüenta essa ‘bobajada’ ouvida na maioria das emissoras, que, além de nos conduzir aos confins de um inferno sonoro, ilude grande parte da nossa juventude levando-a a acreditar ser essa a única música brasileira”. BINGO!! Fazia tempo que eu procurava uma oração que resumisse em poucas linhas e em apenas três vírgulas a minha opinião sobre as músicas “brasileiras” que fazem sucesso no Brasil hoje, e, quiçá... - No Brasil mesmo.

Eu até já me aventurei em escrever alguns versos e musicá-los com cinco ou seis notas, mas vi que não sou muito bom nisso e logo desencanei. Mesmo assim, ainda cheguei a tocar algumas delas com a minha antiga banda de Hard Core, mas hoje em dia não consigo mais, elas são muito mal feitas, carentes de sentido; de todo jeito eu ainda gosto delas porque marcam um momento da minha vida, sem contar que o fato de eu corrigi-las hoje, significa que eu evoluí nesse sentido. Bem que algumas bandas poderiam pensar o mesmo que eu, né? Por exemplo, as letras do Nx Zero não se diferenciam nenhum pouco das que eu fazia quando tinha dezesseis anos de idade, nadinha. Mas os caras são bonitinhos, isso é o que importa.

O som feito hoje (dos que fazem sucesso) não passa nenhuma mensagem que possa acrescentar alguma coisa para nós, que não seja para completar o nick-name das menininhas apaixonadas. Você discorda disso? Então compare uma letra do Chico Buarque nos tempos da ditadura que misturam política e amor sem perder o sentido (músicas feitas com a cabeça), e uma do grupo Revelação (músicas feitas com a bunda) que é pura dor de corno e contentamento, que irão ver a diferença.

Mesmo com todo esse cocô que temos de sobra tocando nas rádios por todo o país, têm bandas boas se destacando na internet que são bem criativas. Muitas delas misturam música eletrônica, jazz, blues e muitos outros estilos com MPB (samba e Bossa Nova); essa pode ser uma boa alternativa para inovar sem se esquecer do que é nosso de fato. Bandas como o Mombojó (PE), Móveis Coloniais de Acaju (DF) e o próprio Los Hermanos (RJ), podem ser incluídas nesse grupo. Além deles, cantoras como a Céu, Mariana Aydar e Roberta Sá conseguiram agregar as raízes da música brasileira juntando outras influências mais modernas. Vale a pena conferir.

Bom, essa é minha dica pra vocês. Porra, precisamos resgatar a nossa cultura. Se nós, jovens, não darmos valor ao que foi feito aqui, nossos filhos nunca darão. Sendo assim, onde irá parar a nossa identidade cultural? No “Créu”?

domingo, 23 de dezembro de 2007

Retrospectiva 2007

Apesar de ser uma época de festas e confraternizações, eu não gosto muito dos últimos meses do ano, mais precisamente o mês de dezembro. Isso não é de hoje. Desde quando era criança ficava um tanto quanto impaciente quando meus coleguinhas da escola vinham com aquela história de que o Papai-Noel estaria por chegar. Não sei se isso foi bom ou não, mas eu nunca acreditei no “bom velhinho”; talvez isso acontecera por influência dos meus irmãos que, por serem bem mais velhos, punham uma dezena de coisas na minha cabeça; entre elas, coisas do tipo: “Papai Noel? Ele não existe, não passa de um velho tarado”. (Só um pequeno comentário aproveitando: vocês viram que não são só os meus irmão que odeiam o “barba branca”; essa semana teve até traficante atirando no helicóptero do Papai-Noel hytec, pode uma coisa dessa?). Enfim, além disso, o fato da minha mãe ser bastante religiosa (católica) ofuscava mais ainda o brilho do “velhote” já que pra mim o Natal nada mais era que a comemoração do nascimento do menino Jesus. Não me arrependo por isso; alguns dos meus amigos dizem que eu não tive infância e eu discordo sempre que ouço isso e digo mais: o verdadeiro sentido do Natal já foi totalmente distorcido, o que era pra ser uma data de comemoração religiosa se tornou uma data de comemoração para os comerciantes que lucram muitas verdinhas essa época do ano. Mesmo com todo esse pessimismo, do Reveillon eu sempre gostei. Aqueles fogos de artifício ainda conseguem me deixar boquiaberto com as suas cores deslumbrantes e barulhos ensurdecedores. Isso sem contar que eu sempre me emociono ao lembrar do ano que passou e começo almejar os planos do ano que está começando.


Esse ano foi muito bom pra mim, talvez tenha sido o ano que eu mais amadureci e aprendi. Vi como a vida é dura e como é difícil você se preparar muito e no final perder a batalha. Desde os primeiros minutos do dia 1º de janeiro eu já tinha como principal objetivo me acabar nos estudos pra entrar na USP. Fiz cursinho o ano todo; estudei bastante, mas não o bastante pra passar no meu curso. Desde que vi o resultado venho revendo alguns dos erros e tenho encontrado bastante; muitos que já tinham aparecido e outros que percebi só agora, mas que ajudarão bastante no ano que vem. Conheci muita gente legal e inteligente; cada um com a sua peculiaridade e seu modo diferente de ser, o que contribuiu muito pra eu rever algumas das minhas atitudes e parar de reclamar da vida boa que eu levo. Viajei pro Rio de Janeiro pra assistir a minha banda predileta com um dos meus melhores amigos. Tive algumas “aventuras amorosas” que é melhor eu guardar pra contar pro meus filhos (Rs). Enfim, o ano de 2007 ficará marcado na minha história.

Desejo a todos que me acompanharam, que passaram esse ano do meu lado ou aos que apenas leram meus textos, não só um Feliz Natal e um ótimo Ano Novo, mas uma ótima vida. Aproveitem o máximo. Agradeçam a Deus (ou ao que acreditar) pela saúde que têm, pela família que têm e pelo fato de estar vivo do lado das pessoas que gostam.

Até ano que vem!

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Insignificância Digital

Nesse domingo que passou (dia 2 de dezembro), o presidente da república Luiz Inácio “Lula” da Silva inaugurou a TV Digital. Depois de algum tempo tentando adotar esse modelo inovador de transmissão que já opera em alguns dos principais países do mundo, Lula conseguiu trazer à nossa nação uma qualidade maior no que diz respeito à sensação visual dos telespectadores. Por enquanto, essa regalia é acessível apenas para moradores da Grande São Paulo (ainda que seja preciso desembolsar o equivalente a R$ 900 para comprar o conversor de imagem), mesmo assim, o projeto já tem em vista a expansão do modelo por todo o território brasileiro com o investimento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) no valor de 1 bilhão de reais (aí se vão alguns livros, merenda, salário de bons professores...).

Segundo o presidente, a TV Digital será muito útil à população. Disse que, com a melhoria na qualidade da imagem dos televisores e na alta produção dos tais conversores, “haverá um grande salto tecnológico, econômico, social e cultural no Brasil”; e disse mais: “ É uma verdadeira revolução (...) vai estimular a nossa indústria, gerando emprego, renda e oportunidades para o país” (aquele discursinho vagabundo de sempre). Esse foi o momento em que eu desliguei a televisão. Juro! Não dava mais pra assistir aquilo; ver aquela feição de que tudo está ocorrendo maravilhosamente no país me deixou extremamente impaciente. Depois eu até resolvi assistir todo o pronunciamento pela internet, mas foi difícil, difícil.

Aí eu fiquei pensando no que o “Companheiros e Companheiras” disse. Comecei a imaginar a D. Maria sentadona no sofá assistindo a novela das oito, vendo a Ana Paula Arósio e o Gianecchini se pegando na piscina com aquele saxofone afinadíssimo do Kenny G. de fundo musical (aquela verdadeira baboseira), e o detalhe mais importante, com a imagem impecável, sem nenhum chuvisco, nem tampouco “fantasmas” distorcendo os olhinhos azuis da atriz que o governo suou pra nos propiciar. Tudo isso é muito lindo, maravilhoso, magnífico e esplendido. Agora, se isso for algum avanço pro Brasil, por favor, me aponte qual é que eu não estou conseguindo achar.

Parece que dar distração ao povo, melhorar o acesso a essa mediocridade que é a televisão brasileira, evitar que a população pense no que de fato é melhor pra todos, está sendo o principal objetivo desse governo. Isso é inaceitável. O governo não tem se quer uma rede de televisão que incentive a cultura, com programas educativos e construtivos. Fora a TV Cultura, não há nenhuma outra emissora que tenha na sua grade de programação bons conteúdos de informação, se tem, é de madrugada e “olhe lá”. Agora, do que adianta melhorar a imagem se o conteúdo televisivo deixa a desejar? É uma imbecilidade investir dinheiro pra melhorar a qualidade da transmissão pro povo assistir programas como Super Pop, Tv Fama, Big Brother, Novelas Globais e outras "merdas". Ridículo!

Enfim, vão aí alguns questionamentos pra que vocês possam refletir:
1) Esse investimento vem em troca do quê?
2) O país precisa desse tipo de coisa pra evoluir?
3) Será que precisamos melhorar a qualidade da imagem ou melhorar a qualidade da programação?

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Consciência Hipócrita!

Definição para a palavra consciência: 1. Capacidade que o homem tem de conhecer valores e mandamentos morais e aplicá-los nas diferentes situações; 2. Testemunho do nosso espírito, aprovando ou reprovando os nossos atos; 3. Cuidado escrupuloso; 4. Honradez, retidão; 5. Conhecimento.
Pois bem, daqui a pouco entenderão o motivo no qual defini a palavra, ok?

Hoje é feriado do Dia da Consciência Negra, um daqueles que você pode ficar em casa “coçando o saco” e assistindo a Ana Maria Braga com os seus discursos matutinos de auto-ajuda e suas guloseimas, acompanhada daquele Louro chato e sem graça; se fores um cara mais “saúde”, vai ao parque andar de bicicleta e olhar a mulherada de shortinho; ou se for um vestibulando desesperado nas vésperas da prova, fará como eu: ficará em casa tirando o atraso. Mas Enfim, o que me fez escrever esse texto, além da saudade de passar para o papel alguma coisa que não seja equações, regras gramaticais e redações de temas chatos, é o significado do feriado que hoje “comemoramos”. Vamos lá.



Quer dizer então que precisamos ter consciência que os negros existem? Precisamos ter um cuidado escrupuloso, honradez, retidão e conhecimento pra saber que eles estão por ai? Ah! Para com isso! Parece até frase feita, mas todos nós somos iguais, independente da cor da pele. Eu, particularmente, não vejo nada mais racista e hipócrita que isso; na verdade acho que só inventaram esse feriado pra dar tempo do povão ir à 25 de março e comprar os enfeites da árvore de Natal, o presente da vovó e da criançada, só isso! Não é possível que depois de 119 anos da abolição da escravatura no Brasil (que por sinal, foi o último país a adotar a medida em todo o continente americano), ainda haja esse sentimento de que individuo de pele escura é inferior. Tudo bem que desde a declaração da Princesa Isabel que, segundo Raul Seixas,“ curtia um negão, fumou um baseado e aboliu a escravidão”, o preto é sinônimo de pobre; isso é fato, não é racismo não. Todo mundo sabe o que o negro saiu da senzala e foi direto pra favela, não por opção, mas por obrigação, por não ter pra onde ir. Isso faz com que o povo tenha o seguinte pensamento: PRETO = POBRE = BURRO. Aí, pra confirmar, as nossas excelências de Brasília criaram cotas nas Universidades para quem se considerar negro, o que pra mim também é um atraso sem igual. Esse é um problema de cunho social e não intelecto-racial.

Aproveitando o assunto da educação, tive uma surpresa esses dias. Lendo o caderno de fim de semana do jornal Valor Econômico (dias 9, 10 e 11 de novembro), deparei-me com uma matéria “engraçadissima”; o titulo era: “A segunda abolição”. O texto referia-se a uma faculdade localizada na cidade de São Paulo chamada Zumbi dos Palmares onde 87% dos seus alunos consideram-se negros. Esta estaria por formar a primeira turma de Administração, se não me engano. O artigo “puxava o saco” da faculdade, dizendo que agora sim há igualdade, que o negro agora vai poder estudar sem ser vitima de preconceito, que empresas já estariam interessadas nos alunos recém-formados e blá blá blá, enfim, uma verdadeira "melação de cueca". Depois que terminei de ler(pasmo),logo pensei: Cara, o Brasil daqui a pouco vai estar que nem a África do Sul; qualquer dia irei comer na praça de alimentação do shopping e vai ter uma placa anunciando: área reservada para negros; ou se não, quando for pagar minhas contas no banco, estará escrito: o uso dessa fila só é permitido para pessoas que considerarem-se negras, por favor, tragam consigo o seu comprovante de “negritude”. Complicado né!?

Bom, vou deixar a cargo de vocês as demais discussões sobre o assunto. Mas de todo jeito vou tecer a minha opinião: Um país que busca desenvolver-se e dar qualidade de vida para toda a sua população, tem que começar a tratar todos por igual. Precisa haver a consciência que, apesar do tom de pele do individuo, ele é brasileiro; ele não precisa de feriado pra ser reconhecido; ele precisa de oportunidade, não essa oportunidade fácil (cotas e outros), ele precisa de educação de qualidade, acesso à saúde e à informação; e outra coisa, faculdade pra negro? Desculpem-me a expressão, mas PUTA QUE PARIU... Aonde vamos chegar?

Passar bem!

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Uma Visitinha Inusitada

Era aula de literatura com o professor Roberto Juliano. Discutíamos a segunda fase do Modernismo, mais precisamente sobre um famoso poema do escritor Carlos Drummond Andrade chamado No Meio do Caminho. Aquele que diz: “No meio do caminho havia uma pedra, havia uma pedra no caminho (...)”. Confesso que nunca parei para analisar esses versos, mas após as explicações do mestre, fui ligando os pontos e consegui concluir algumas coisas. Depois de um tempo lendo e relendo este, abriu-se um “leque de opções” para que eu pudesse viajar nesse mundo louco das palavras. Um dos meus pontos de vista foi o fato da “pedra no caminho” ser os acontecimentos marcantes do nosso dia-a-dia, eventos que dificilmente ocorrem, mas quando ocorrem, ficam guardados por toda a vida ou até quando a memória estiver por perto. Com tudo isso, lembrei-me de um fato memorável que acontecera comigo dias antes desta aula: os papagaios encima da câmera de transito na Avenida Ermano Marchetti, na Lapa.

Ainda não havia passado das sete horas da manhã e os carros já preenchiam todas as faixa da avenida com suas carruagens de plástico e seu silêncio barulhento. Enfim, sempre que vou atravessar aquela avenida, olho o céu para saber se o dia será ensolarado ou nublado; aquele dia não foi diferente. Porém, quando olhei para o alto, tive a surpresa: eram três, verdinhos e perdidos como “cego em tiroteio”; longe dos galhos e folhas que os acolhem quando mais precisam, pareciam desesperados com aqueles objetos correndo rapidamente embaixo deles, com medo das formigas gigantes desviando umas das outras pela calçada a fora e daquelas muralhas de concreto por toda parte.


Vendo aquela cena, perguntei-me: o que será que essas criaturas fazem aqui? Pensei que decerto fugiram do Jardim Zoológico ou fugiram do domínio de algum seqüestrador de animais. Ao mesmo tempo em que deu uma tristeza vê-los fora de seu habitat natural, tive um sentimento de liberdade, independência; fez-me lembrar de quando ia pra casa dos meus avós para subir na mangueira e nadar nas límpidas águas do açude do finado Chico de Matias.

Refletindo sobre essa ocorrência, vi como a urbanização é inversamente proporcional à natureza; enquanto uma cresce desordenadamente, a outra desaparece numa velocidade extraordinária. Por exemplo, a Mata Atlântica localizada na porção leste do Brasil, tem hoje 7,3% da sua vegetação original, sendo que em alguns Estados quase não existe mais devido o desmatamento que essas áreas estão sendo expostas. Isso sem contar a Floresta Amazônica, antes considerada o pulmão do mundo, que está sendo substituída por pastagens com a intenção de abrigar vacas emissoras de gás metano (CH4) e para as plantações de soja (a mais nova monocultura brasileira), que aqui entre nós, servem para alimentar o mundo inteiro, mas para os brasileiros... O RESTO! Mas isso é um assunto pra outra ocasião. Enfim, quem mais sofre com toda essa degradação são os animais nativos desses locais que são obrigados a se acostumar com os seus novos “lares” de cimento. Estão ai as explicações para o aumento aparente desses animais no nosso cotidiano; com a diminuição das áreas verdes, estes “se viram” como podem. Já bastavam as capivaras dos rios Tietê e Pinheiros (SP), os macacos equilibristas nos fios de alta tensão em Copacabana e Ipanema (RJ), agora são os papagaios da Lapa (SP).

O pior de tudo é saber que tem pouca gente se importando com isso e que esses fatores não serão revertidos tão cedo. A tendência é aumentar cada vez mais os desmatamentos, queimadas, transposições de rios, o que fará com que esses acontecimentos se tornem normais. Lamento também que só “acordaremos” depois que essa situação for irreversível. Se você puder fazer algo para mudar essa realidade, o faça, pois nossos filhos e filhas precisarão dessa nossa consciência. Agora, se você não se importa com nada disso, PREPARE-SE, o BBB 8 já esta com as inscrições abertas!